20 de fevereiro de 2011

A mulher e a roseira

 A vida pode ser realmente algo efêmero e inesperado. Como uma viagem cujo destino se desconhece e a única certeza que temos, é que devemos continuar caminhando. Sabemos de onde partimos, mas não sabemos quem somos, tampouco quem seremos. Podemos ter tudo, mas a única coisa que realmente levaremos durante toda a viagem é a nossa bagagem.  Dentro dela lembranças, que nos contam todos os dias quem realmente somos, nos mostrando por onde passamos e o que nos tornamos. Para alguns, a bagagem cabe dentro do coração, para outros, há a necessidade de se colocá-las em caixinhas.



Todas as histórias devem ser contadas, mas algumas precisam ser escritas, para que não se esqueça das lições que elas podem nos ensinar. Essa história fala de uma mulher e sua roseira, com elas os momentos e coisas que nos cercam todos os dias, mas que pela incapacidade de enxergar o óbvio, deixamos de notar.


Ela sentou-se numa poltrona em frente a uma larga janela, de onde podia ser ver a rua estreita da pacata cidade onde morava de frente com a roseira que ela plantou com tanto cuidado. Ela se sentou, olhou para o relógio, era um pouco mais de nove da noite. Fez então o que fazia todos os dias, pegou a sua velha caixinha de madeira que ficava guardada no ármario ao lado da poltrona. Deveria ter um pouco mais de 70 cm de comprimento por 110 de largura, era de madeira esculpida a mão por um artesão por quem há anos foi apaixonada. É certo que ela não se casou com ele, mas juntos viveram momentos inesquecíveis, dentre eles, o dia que ela ganhou essa caixinha.


Naquele dia, ela resolveu que ia fazer diferente. Ao invés de simplesmente segurá-la e observar, ela abriu a caixinha e na parte inferior da tampa estava escrito:  

"Para a mais bela flor, com carinho, D."

Ela jamais esqueceria do dia em que visitou seu ateliê pela primeira vez...

- Pois não, posso ajudar? - surge um homem alto e belo.
- Estou certa que sim. Preciso de uma caixinha de madeira, nem tão pequena, nem tão grande. É para guardar cartas.
- Claro. Acho que tenho o que você precisa lá dentro. Só um instante. Vou buscar...
- Você gosta de música clássica?
- Como?
- Música clássica! tipo Mozart, Pachelbel?
- Não muito - ele respondeu confuso - Mas porque a pergunta?
- Eu amo!

Ele encarou ela por alguns segundos tentando entender se ela realmente estava falando sério sobre a música clássica. Não que não fizesse sentido ela gostar da música, mas porque ela teria falado sobre aquilo, naquele momento a alguém que lhe era totalmente estranho?

- Bom eu vou embora, amanhã eu volto.
- Mas e a caixinha? - ele perguntou ainda mais confuso.
- Amanhã eu volto.

E ela voltou, mas não levou a caixinha. Os dias se passaram e ele não conseguiu esquecer seus belos olhos castanhos. Pensando em como poderia revê-la, lembrou-se do dia em que havia a conhecido, só então ele conseguiu entender a pista que ela havia deixado.

- Vejo que você seguiu minha pista.
- Você é a garota mais esquisita que eu já conheci.
- Engraçado, você não é o primeiro a dizer isso...

Eles namoraram alguns meses e ele fez a caixinha com uma rosa esculpida para lhe dar de presente no seu aniversário. Ele gostava dela, mas ela ainda não havia descoberto o amor. Não aquele dia. Não com ele.


Ela olhou novamente para aquela caixinha e tirou de dentro uma foto antiga, um pouco amassada e apagada, mas ainda dava para enxergar a data. Era julho, seu 3º aniversario. As memórias da infância eram sem sombras de dúvida as melhores. Seu pai havia lhe ensinado o quanto deveria ser forte e corajosa quando estivesse em frente ao mundo, com isso ela se sentia muito mais segura para caminhar com suas próprias pernas. Sentiu o carinho do abraço de sua mãe que mesmo nas horas onde ela havia sido mais dura, no fundo representava toda a proteção que podia lhe oferecer. A saudade de quando era tão pequenina e dependente de seus pais a fez sorrir, tão inocente e terna. Poderia ter sido assim para sempre, foi o que ela pensou.


Logo em seguida ela remexeu novamente a caixinha e tirou um desenho. Um "vestido do futuro", como gostava de chamar. Colorido e com uma mancha de coca-cola, que ela adorava tomar nas noites de sábado ouvindo seu walk-man e desenhando suas coleções de vestidos. Ela se lembrou dos tempos que sonhava em ser estilista, deveria ter seus 11 anos e isso a deixou com uma expressão saudosa no rosto e um leve aperto no coração. Aquele sonho de garotinha se tornou cada dia maior e a levou por caminhos realmente surpreendentes. Inevitável não se lembrar da sua primeira paixão de adolescente que a fez amar os momentos que estava no colégio e das noites que ficava até as 22:00 assistindo MTV e achando que aquilo fazia ela ser bem rebelde. Se sentir única era uma necessidade que esteve presente durante toda sua vida, sobretudo naquele momento. Alguns piercings, protestos, noites sem rumo, sem amigos. A Adolescência tinha seu preço, salgado mas necessário. Ela aprendeu, se ergueu, se transformou e cresceu.


"Agente faz cada coisa nessa vida", ela gargalhou enquanto tirava da caixinha um ingresso bem antigo de um show que ela fora em seus 18 anos... Ela lembrou-se de como havia pulado naquela noite e de como ela adorava o som da guitarra e o cheiro de cravo e canela. Se ela pudesse escolher uma única época de sua vida para reviver, sem sombras de dúvida, seria aquela. Foram poucos os dias, mas a intensidade do que havia em seu coração não permitiu que ela esquecesse aqueles momentos nenhum só segundo de sua vida. Contudo era necessário seguir em frente.


Ela sentiu fome, era uma noite fria de inverno, então ela caminhou até a cozinha para pegar uma xícara de chá quentinho e uma travessa com marshmallows coloridos, um vício de moleca que nunca conseguiu quebrar. Dentre um gole de chá e um bocado de doce, ela tirou uma foto onde ela estava vestida de bailarina.

- Quando vamos dançar?
- Semana que vem!
- mal posso esperar para estreiar minha sapatilha branca.

Entre alguns pliés e rodopios, ela não somente dançou, mas sobretudo, aprendeu sobre amor, fé e amizade. Junto das pessoas que ela aprendeu a amar como irmãos, ela teve suas melhores amizades, com quem pode contar por toda sua vida.


Ela parou um instante e respirou fundo. Tantas lembranças dentro de uma caixinha tão pequena. Sentada naquela cadeira, com o luar iluminando seu rosto, ela relembrou as tardes que passou deitada no chão do quintal de sua casa olhando o céu e admirando o sol, a lua e as estrelas. Eram tantos sonhos, tantos sentimentos. Tudo havia mudado, mas era um verdadeiro privilégio poder relembrar tudo aquilo.


Isso a fez tirar uma carta da sua caixinha, um envelope amarelo com bordas douradas.

Um aperto no peito a tomou por alguns segundos. Lágrimas fora inevitáveis e ela fechou a caixinha por alguns minutos.

"Minha flor, nosso convite de casamento. Estou te mandando para você não esquecer! Sabe como é né?! Todo cuidado é pouco, não consigo imaginar meu casamento sem você. Poderia haver um casamento sem uma noiva?"


Ela abriu um sorrisso como não fazia há muito tempo. Durante muitos anos ela se apaixonou muitas vezes, mas com ele ela sentiu um amor tão forte que não a deixava pensar na sua vida sem ele do seu lado. Felizmente ele a amou da mesma forma e com ela viveu até o último suspiro de vida.

Lembrar-se disso a fazia sentir vontade de vê-lo novamente, de tocá-lo, abraça-lo e dizer que ele tinha sido o melhor presente de Deus para ela... Mas ela sabia que já não seria possível.


Em seguida ela remexeu no fundo na caixinha e puxou uma página de uma revista muito famosa na sua juventude, era a primeira matéria que ela havia assinado como jornalista. Ela se lembrou de como batalhou em vários empregos para chegar até ali, de como se esforçou para conseguir a faculdade que seus pais não puderam lhe dar. Apesar de querer desistir muitas vezes, ela sentiu que havia valido a pena cada momento em que ela decidiu avançar.


Nesse momento lhe veio mente também seus ideais sociais e politicos, vários debates no qual ela sempre fazia questão de expressar sua vontade de ver tudo diferente. É bem verdade que o tempo mudou sua forma de pensar, mas o seu espírito continuaria sempre o mesmo.


Ela olhou mais uma vez o relógio e viu que já passava das onze da noite. Ela estava cansada, era hora de guardar as lembranças na caixinha, mas ela simplesmente não conseguia guardar sua lembranças. Revirando os vários papéis que lá tinha, ela achou um sapatinho de bebê que ela mesmo havia tricotou durante a sua gravidez.

Ela sorriu e lembrou-se de como abraçou forte seu garotinho quando o levou para escola no primeiro dia de aula, de como ficou preocupada com o primeiro namorado da filha e de como ela ficava louca quando eles brigavam porque odiavam ser gêmeos.


Ela lembrou-se de como chorou no casamento da filha e de como aplaudiu na formatura do filho e isso a fez sentir que havia realizado seu sonho de ser uma grande mãe. Junto com o sapatinho, havia um cartão do seu ateliê, um sonho antigo de juventude que se tornou realidade depois de seus filhos já casados. Ela percebeu que nem a velhice a impediu de lutar por seus sonhos e isso a deixou orgulhosa  de si mesma.

Ela então guardou tudo dentro da caixinha e se deitou para mais uma noite de sono, apenas esperando por um novo dia, ou algo maior que isso. O dia amanhece e a campainha toca, ao abrir a porta, ela tem uma doce surpresa! Sua filha e sua neta vieram lhe trazer o café-da-manhã:

- vovô, vovô,mamãe e eu compramos aquele cereal que a senhora gosta! Todo coloridinho :)


Ela deu um abraço bem apertado na menina que desejou ser como a avó quando crescesse. A filha e a neta foram embora e depois de alguns anos ela também partiu, mas a roseira que ela plantou com tanto cuidado continuou em frente a janela do quarto, onde ela esquecera antes de partir a caixinha em cima da cadeira com todas suas recordações de uma vida inteira. Ao lado da caixinha ficou também um papel, as últimas palavras de alguém que viveu e amou a vida o tempo inteiro, era algo realmente interessante para se ler...

"Que o verdadeiro sucesso é a felicidade isso todos nós sabemos. Mas o que por muitas vezes esquecemos é que a felicidade só acontece quando nós aprendemos que ela não está a caminho, que não vamos topar com ela algum dia. Mas que ela já está dentro de cada um de nós, apenas esperando que desfrutemos de sua companhia durante nossos dias. Eu vivi cada momento no máximo da intensidade que me foi permitida. Se chorei, chorei. Se sorri, sorri. Não menti para mim mesma falsos sentimentos e se amei, disse eu te amo. A pior das mortes, acontece enquanto estamos vivos. Quando deixamos de lado quem somos para representar uma papel de quem deveríamos ter sido. "

Se ela foi uma grande mulher? Isso não saberia dizer, mas dizem que ela foi uma grande escritora e disso eu não posso discordar.

Esse texto foi escrito por mim no dia 09 de fevereiro de 2007 no antigo forever-star.org. É um texto que recebeu bastante comentários positivos, achei que seria legal trazê-lo para o bonitaflor também. Lembrando que é um texto de ficcção, mas qualquer semelhança com a realidade não é mara coincidência.

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7 comentários

  1. Não poderia deixar de expor aqui meu comentário!
    Esse texto é realmente lindo, até me identifiquei, ou melhor me identifiquei muito com muitos sonhos meus, e amei, amei mesmo de verdade!
    Parabéns!

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  2. Vi muito de você na trajetória dessa vovó. Lindo texto e bons tempos aqueles do Forever Star! ;D
    Kiss

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  3. Ai, flor, que texto bonito! Bem a sua cara :)
    Que bom que postou aqui, pois não havia acompanhado o forever star :/

    beijinhos :*

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  4. Amo esse texto jess, lembro de nós duas sentadas lá na salinha lendo esse texto e comentando das conicidências hahah essa mulher não pode ser outra se não for vc! obrigada pelo lay passa lá no meu blog e responde o PORQUE?
    bJKAS........

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  5. querida que coisa mais linda... em 2007 quantos anos vc tinha?? sabe que eu acho que quanto mais nova somos, mais criativas somos? quando vamos ficando adultas as coisas tendem a se tornar mais cinzas...admiro a todas que conseguem perpetuar o poder da imaginação!! parabéns! beijinhooos

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  6. @Nina eu tinha 15 :) eu tbm acho isso, naquela epoca escrevia coisas lindas!

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  7. Meudeus Jess, que lindo! *-*
    você é uma grande escritora,pode ter certeza disso!

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