11 de agosto de 2012

Uma sociedade degenerada - sobre o blogueira shame

Eu prometi que não iria escrever mais sobre esse blog inútil por aqui, mas sinceramente, devido os últimos acontecimentos, eu não podia deixar de escrever o que eu penso de tudo que se passou.

A primeira sensação ao ver a minha imagem exposta dessa forma é horrível. A gente se sente como em praça pública pronta para levar tomatadas na cara... tipo uma bruxa indo pra fogueira sabe? Com todos gritando: "queeeeeeeeeeeima!!!!!!!" aeuihuihei Tipo inquisição.

De repente aparece um monte de guria que nunca ouvi falar debatendo minha situação social, meu gosto, minha utilidade para o mundo. Umas coisas assim tipo... oi?! Chegaram a dizer que moro no interior (não sabia que Guarulhos é considerado interior, mas se é também, e daí? o_O) e que eu sou uma blogueira cheia de grana que só compra make importada.

Avisa que a única make importada que tenho é um batom da MAC que a Jackies me deu!  eheh

E apesar de não ter vergonha nenhuma da minha pobreza, meu status, ou meu gosto extravagante (pelo contrário, tenho orgulho de quem sou e do que construo com isso!), eu me senti um lixinho, porque é uma enxurrada de gente desconhecida e conhecida (apareceu alguém da universidade lá, tipo... alguém que cruza comigo todo dia!) pra falar mal de mim. E isso não é legal.

Mas logo passa. Pelo menos para mim não durou mais que um dia. Fiquei pra baixo, mas logo já estava usando minha meia colorida com meu sapato amarelo de novo. eheheh Eu gosto ué? e daí que é brega? Continuarei usando, porque me sinto bem e me gusta MUCHO! rs #aguentemapoluiçãovisual

Mas estou escrevendo isso, porque acredito que mesmo tendo passado para mim, talvez não passe para outros. Tenho certeza, que muitas pessoas ao se encontrarem nessa situação, tendo problemas de depressão ou baixa auto-estima, se sentem um lixo tão grande que pode agravar sua situação. Sério... Eu pensei muito nisso quando aconteceu comigo. Quem me conhece sabe o quanto tenho a auto-estima alta (no geral, não ligo muito para o que pensam de mim) e mesmo assim fiquei mal, imagina alguém que se acha gorda, feia ou coisa parecida sendo gongada dessa forma? Crueldade define.

Por isso decidi escrever esse texto. É sempre bom falar umas verdades né?

O blogueira shame como um blog justiceiro?


Na nossa sociedade degenerada - onde tudo vira mercado, mercadoria - é um pouco comum que a gente se revolte com a perda da essência das coisas, com a futilidade que nos cerca. É tudo tão efêmero e superficial que acabamos por procurar algo que  complete o vazio interminável no peito. Somos movidos pelo novo, pelo lançamento, pelas tendências, pelo consumo, pelo status. E com a concorrência e  a desigualdade entre nós, acabamos por reproduzir na internet o mesmo que ocorre em nossa sociedade: blogueiras ricas conseguem tudo, blogueiras pobres são enganadas e tratadas como súditas, mantendo o reinado das grandes rainhas da publicidade.

Eu  poderia dissertar horas sobre os motivos sociais e políticos que nos trazem a essa situação, porque tenho plena convicção que esse não é um problema novo e que se pauta sobretudo na nossa forma de organização social, degenerada e doentia. Mas para não parecer um artigo acadêmico, falarei de forma simples, como em uma conversa de bar.

Para quem acredita que o blogueira shame é justiceiro porque denuncia as barbaridades que cometem as fhits e outras blogueiras famosas, sobra ingenuidade. Afinal, não é necessária mais que uma visita para perceber que no meio de 1 ou 2 posts denúncia que realmente seja útil há 15, 30 posts gongando pessoas normais por seus gostos duvidosos. Então fica claro que o que está em questão é a zoação. Pura e simplesmente.

No começo eu critiquei muito, mas hoje eu entendo o sucesso desse blog. As pessoas estão cansadas. Cansadas de serem tratadas como estatística, como números para alguma blogueira ganhar em cima disso. Realmente, isso é frustrante e muitas vezes, nós blogueiras fazemos isso com as leitoras. As vezes intencionalmente, as vezes  sem perceber. Triste realidade.

E para ajudar, nós que somos tratados (e as vezes tratamos os outros) como estatística não sabemos como nos livrar dessa situação, então decidimos agir na ilegalidade, rompendo uma rebelião irônica de gongação para ver se conseguimos atingir as rainhas que estão no topo. Tipo quase uma insurreição no feudo saka? Os campesinos contra a nobreza! UI!

E nos achamos muito livres de tudo isso. Só que não percebemos que além de não atingir o alvo e as coisas continuarem na mesma, acabamos gerando em nós uma miséria muito maior do que já possuímos... Porque além de continuarmos sendo estatística, acabamos por perder o mínimo de respeito entre nós. Deixamos aflorar nosso instinto animal e brigamos entre si.

E esse é o panorama da blogosfera, que não é nada além do reflexo de nossa sociedade. Capital,  hierárquica, patriarcal e em muitos aspectos feudal. Então eu entendo as micro-rebeliões que surgem, o descontentamento e até o que nos leva a apreciar esse blog, mas tenho plena convicção que se é essa intenção, está se fazendo errado. Enquanto vivermos sob regime de escravidão - uma escravidão moderna- não estaremos livre da frustração de ter que acessar o blog vizinho e perceber que sobra a uns tudo que a nós nos falta. E começar a gongar qualquer um que tem blog, não vai nos libertar dessa situação.

Por isso, dizer que a blogueira shame é justiceira, no mínimo é ingenuidade (se não for mal-caratismo mesmo!). Não há nada de justo nesse blog, apenas há o retrato vazio da nossa profunda decadência que de tão perdidos que estamos, perdemos ainda o respeito entre nós e a incrível oportunidade de conhecer as mais variadas formas de expressão e aprendermos a respeitar as diferenças do outro.


Crítica a moda? Ou reprodução da mesma?


No último paragrafo eu falei de perder a oportunidade de conhecer as mais variadas formas de expressão e é sobre isso que falarei agora.

As shamezinhas (as discípulas ) que ficam a  enviar artigos para alimentar esse blog, se orgulham de dizer que são livre da moda e que não seguem as tendências como as blogueiras de moda. Mesmo?

Então porque diabos implicam com quem decide usar uma saia azul bufante com uma meia amarelo limão? Ou uma bota marrom caramelo com uma meia preta e uma saia verde-limão?? É ridículo? é brega? Oras, se é pra se ter estilo próprio, que seja respeitada a livre expressão. Eu também acho algumas combinações estranhas, ao tempo que gosto de outras. Sempre falei por aqui que tenho meus gostos polêmicos, uso croc´s com bichinhos grudados nele, adoro meia colorida e sapato de feira. Mas e daí? Sou assim e sou feliz. Meu pai costuma dizer que sou filha de cigana, porque adoro saião, coisas coloridas e muita informação... Mas e daí? Sou assim e sou feliz.

O blog da shame não faz uma crítica ao mercado de moda e as pessoas que seguem ela, mas reproduz a ideologia que há uma forma certa de se vestir, que há o "bom gosto" e o "certo". Por isso, não me venham com mimimi de que há originalidade ou uma campanha pela livre expressão ali, porque é justamente o contrário. Com o medo de cair naquele site, muitas pessoas deixam de mostrar toda a sua diversidade enquanto ser-humano multi cultural e nós  só perdemos com isso.

Perdemos porque embora o outro nos pareça estranho, ou brega, é sempre rico poder enxergar o mundo de uma outra perspectiva. Inclusive social, porque não há nenhum mal em ser pobre, pelo contrário, há sim muita riqueza, porque quantas blogueiras pobres não nos mostram todo dia como fazer a nossa vida mais gostosa com coisas simples e acessíveis?

Viva o proletariado blogueiro! ehehehe


Sem moralismo, todos adoramos criticar os outros! E eu me incluo aqui.



Não quero dar uma de boa moça que não fala mal de ninguém. Poxa, todo mundo adora alfinetar e comentar o gosto duvidoso de alguém, a forma como escreve e etc... faz parte de nós. A questão é que há uma enorme diferença entre um comentário isolado (daqueles entre amigas no banheiro sabe? que a gente faz sem dar muita atenção, só pra ter assunto) e uma necessidade de ir a praça pública para ver quem é a ridícula do dia.

A diferença está na proporção do estrago de nossas ações. Um comentário isolado de banheiro apesar de ser tão cruel quanto, na maioria das vezes não chega a pessoa em questão. Além do mais, se você não é uma fofoqueira de plantão, será um comentário desproposital, tão efêmero que logo estará esquecido. Já a necessidade de se saber que é a loka do dia, a analfa do dia e blá blá blá, me parece ser um desvio patológico comportamental. Aka. precisa de acompanhamento clínico!


Então creio ser a hora de avaliarmos nossos hábitos. Quando alguém me diz que entra no shame pra se divertir, eu fico preocupada. De repente, as pessoas sentem necessidade de ir na praça para ver quem é a idiota que está exposta como objeto para ser julgado.  Ridículo,  doentio. Estamos rindo de nossa desgraça, de nosso atraso enquanto ser-humano. E isso não é aceitável.


Por isso tudo dito aqui, finalizo apenas com uma frase:

"Se na nossa capacidade não conseguimos superar os entraves do mundo que nos rodeia, rir de nossa desgraça só nos fará palhaços ainda mais tristes em uma sociedade do espetáculo". 


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