Vai ter copa sim, e aí?

13 de junho de 2014


Começo avisando: quem espera um texto bonitinho, elogiando coisas boas do Brasil, sinto dizer, não vai achar. Mas também não é um texto de lamentação não. Pelo contrário. é um chamado para um debate honesto, sem esteriótipos e acusações que não levam ninguém a nada. vamos comigo?

Não é novidade para ninguém, eu sou contra a copa do mundo. E não sou contra porque ela será feita apenas no Brasil, acho a FIFA uma organização corrupta, totalmente anti-democrática e que promove um campeonato as custas de muitas injustiças. Quem quiser ler sobre isso pode começar por aqui, e quem sabe dar uma pesquisada no histórico da instituição para encontrar tantas outros escândalos. Ou seja, por mais legal que uma copa seja (e ela É!) eu não consigo me animar a torcer por um campeonato promovido por uma instituição tão podre. Mas isso é minha moral, não é algo que eu imponho a ninguém. Por isso, antes de prosseguir, quero deixar bem claro: não sou contra ninguém torcer pelo Brasil. De fato, isso não muda nada, e nem faz ninguém alienado. Eu apenas não me sinto feliz. Não consigo me envolver. Mas de verdade, para quem consegue, aproveitem! 

O grande problema disso tudo está em como as coisas estão se dando. De fato o movimento "não vai ter copa" do qual eu participei, fui em vários protestos, não tinha como unanimidade das opiniões DE FATO cancelar a copa. Para muitas pessoas, era apenas não deixar que o clima da copa ofuscasse todas as coisas erradas que estavam acontecendo. E nesse ponto, da minha parte conseguimos. O evento perdeu muito seu brilho e pelo menos, as pessoas estão discutindo fervorosamente essa questão, e isso é muito importante, pois é um certo histórico do nosso povo brasileiro, a ausência de discussões políticas como essa. Por isso, acredito que esse ponto foi importante para o avanço da nossa consciência e não podemos perder de vista essas questões. Afinal, pessoas morreram para que a copa acontecesse e isso não é uma coisa da qual devemos esquecer. Mas também não adiante ficar nessa polarização entre os que defendem a copa e os que não defendem. É preciso deixar um pouco de lado os esteriótipos, e debater mais amplamente o que nos trouxe até aqui. Por isso, Vai ter copa sim, mas e ai? O que vai mudar a partir disso? A minha contribuição é no sentido de desconstruir alguns falsos argumentos que tem circulado por aí a fora, e chamar quem realmente se importa com os rumos do nosso país para um debate mais amplo. 


Vai ter copa, afinal, meu protesto será nas urnas


Eu cheguei a falar no facebook e vou reproduzir mais uma vez o que penso por aqui. A maior parte das pessoas que usa esse argumento não tem uma vida política ativa. De fato, a vida é muito alienante (pois temos que trabalhar, estudar e fazer muitas coisas que tomam nosso tempo), e isso justifica porque na maior parte do tempo nos mantemos distantes das questões políticas, porém participar da vida pública vai muito além de eleger um representante a cada 4 anos, pois a vida pública se faz no cotidiano, nas imensas ações que ocorrem todos os dias, desde decisões que dizem respeito a direitos democráticos, até mesmo mudanças estruturais mais profundas. E isso exige participação. Exige também estudo, ativismo e muitas outras coisas.

Eu digo que a maior parte de quem defende o "protesto nas urnas" não participa da vida política porque somente uma pessoa que está muito ausente dessas questões pode acreditar em algo como isso. Quem se envolve com política (das mais diversas formas) entende que para o sistema representativo funcionar é preciso não somente que haja eleições dos representantes, mas também é preciso que haja a participação (seja no acompanhamento e na cobrança) das diversas tomadas de ações cotidianas que envolvem um determinado governo ou partido. Isso pressupõe não somente  organização (em partidos, ou coletivos), mas também participação direta, que pode vir na forma de protestos, passeatas, petições e etc. Ou seja, tudo isso está previsto dentro do estado democrático de direito. Porém, isso tudo na teoria. Pois na prática, muitos problemas são encontrados. Como o fato de que para um partido conseguir governar é preciso ter uma base no congresso (executivo, com apoio do legislativo) e isso muitas vezes não se ganha apenas no debate das ideias. e também pelo fato de que o estado dentro do modelo de organização liberal não exerce o último papel nas decisões. Por ser configurado como um modelo de livre-mercado, os interesses sofrem pressão direta dos setores da economia, que nesse mesmo modelo, se configuram por entidades quase sempre privadas.

Ou seja, apesar de muita gente defender o sistema representativo liberal (ou burguês, para quem preferir), ele tem muitas deficiências que resultam quase sempre em uma sensação de quem "votar não resolve muita coisa". Isso porque ele está refém do seu próprio modelo de organização que não se muda apenas elegendo novos governantes. Com isso, as mudanças são lentas e quase nunca tocam no ponto central do que efetivamente precisamos. Um exemplo: imagine que todo o povo quer um sistema de transporte eficiente e gerido pelo estado (tarifa zero). Isso é possível, afinal acontece em alguns países e poderia estar dentro do orçamento do governo vindo diretamente dos impostos. O problema é que não é interesse das empresas privadas que lucram com o transporte coletivo, LOGO, eles vão inviabilizar ao máximo que isso ocorra, pois seu objetivo é o lucro, não o bem estar das pessoas poderem usufruir de um transporte de qualidade. Caso o estado queira atender as reivindicações da população, ele vai ter que arcar com os termos que s empresas estipularem. Ou seja, ele vai ter que arcar com o custo e o lucro das empresas para subsidiar a tarifa zero. Isso significaria que ficaria muito caro, praticamente inviável para as contas públicas. 

Mais ou menos isso que aconteceu com a questão da tarifa, ano passado. Para atender a demanda da população, o estado (ou seja, nossos impostos) cederam as exigências das empresas. Elas continuaram lucrando e nós continuamos pagando. Uma vez quando pagamos a tarifa e outra vez pelos nossos impostos.

Em última instância, essa imagem define bem o quanto todo o sistema representativo está subordinado aos interesses privados da economia, por isso ele é tão falho. Quem quiser ler mais sobre isso, pode pesquisar autores que falam sobre o "sufrágio universal" e como ele é uma ilusão que faz as pessoas participarem a medida que não participam de fato. existem autores de diversas correntes de pensamento que falam sobre isso, e até mesmo os próprios liberais. E enquanto continuarmos acreditando que esse sistema de eleição a cada 4 anos pode efetivamente nos contemplar em nossos direitos e interesses, cada vez mais nos distanciamos da questão.

Resumindo, eu entendo que grande parte das pessoas usa esse argumento pois é uma forma de se ausentar MAIS UMA VEZ da questão. É fácil dizer que vai votar certo e depois continuar se ausentando de tudo pelos próximos anos. Não tem como NADA mudar dessa forma. Por isso, se você acredita mesmo nisso, peço que reflita acerca dos comentários que teci acima. Você pode discordar dos meus argumentos e podemos debater, mas eu gostaria de fato que as pessoas parassem de se enganar. Votar não é um protesto inteligente. Votar no máximo é uma obrigação cívica. 

Protestar não vai mudar

Outro argumento muito usado é que protestos não mudam nada, só geram caos. Bom, o caos tem até sua beleza criativa, mas isso é outro ponto. A questão é que as maiores conquistas da história da humanidade se fizeram com protestos, revoltas e revoluções. A mulher poder votar? PROTESTOS. Qualquer um poder votar? PROTESTOS. Parar de matar pessoas nas fogueiras? REVOLTAS. Até mesmo o capitalismo foi conquistado com uma revolução. A revolução francesa e algumas outras que ocorreram tornaram a classe burguesa em ascendência em dominante e os liberais enfim puderam dar fim a monarquia. Do contrário, estaríamos ainda na idade média servindo aos nobres e aos reis. 

A história é mutável, essa é a maior característica dela. E ela só muda quando o povo quer que ela mude. As vezes é preciso guerra para que haja liberdade. As vezes é preciso amor para que haja humanidade. É sempre uma escolha. Agora protestos mudam sim! Já conquistamos algumas coisas com protestos, e tantas outras com revoluções. Concordo que não é perfeito. Não mesmo, pois não é utopia. Até hoje colhemos frutos de nossos erros. Mas se algumas coisas não tivessem sido feitas, acredite, hoje seria ainda pior.

Você pode discordar dessa ideia, mas não pode dizer que não muda. Eu mesmo adoraria que uma revolução fosse impedida, porque acredito que ela é uma coisa horrível. Porém isso não vai ocorrer se a dominação não for extinta. Enquanto houver dominação, haverá revolta. E não podemos dizer que ela não muda as coisas, porque muda. Não para uma utopia, mas para uma outra realidade. as vezes melhor, as vezes pior. Acredito que a melhor estória que ilustra isso é a trilogia Jogos Vorazes. 

Agora que já foi roubado, vamos curtir


Sério, finalizo dizendo que se você pensa assim, as coisas não vão mudar mesmo. A inércia é como um câncer que corroe a alma, tirando a vida de dentro do coração das pessoas. A coisa mais linda de sermos humanos é que podemos construir coisas novas. Não é fácil, não é simples, mas é possível. Tudo pode mudar, tudo pode ser diferente, mas é preciso construir dia-a-dia essas mudanças. As mudanças políticas são ainda mais difíceis, pois esbarram em diversos problemas já dados, mas são possíveis. Agora se você tem como filosofia fugir das contradições, você estará fadado eternamente a viver sob o jugo de outros.

Por isso reflita bem. Se depois de ler tudo isso você ainda quiser achar que nada disso é com você, eu só tenho a lamentar. provavelmente o mundo só está tão ruim assim, porque muitas pessoas pensam como você.


E é isso meu povo. Quem quiser discordar, argumentar, opinar, pode usar os comentários aí embaixo!

Este post faz parte de uma blogagem coletiva do grupo Rotaroots











  1. Achei lúcido e uma das poucas coisas que li sobte o gênero. Acho que foi bastante didático e nunca pensei dessa forma.

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  2. "participar da vida pública vai muito além de eleger um representante a cada 4 anos, pois a vida pública se faz no cotidiano, nas imensas ações que ocorrem todos os dias" - é isso! Seu texto foi o primeiro que li a respeito do assunto e o único com um pouco de bom senso, que tocou na ferida, que traz as pessoas pra um debate sério. Sim, a Copa é pura política! Só não entende isso quem estiver mais preocupado em comprar uma camiseta oficial da seleção.

    Muitas pessoas próximas a mim dizem que, se eu me envolvesse, sentiria a emoção, saberia que é impossível ficar de fora da festa. Pois, olhe, eu digo que, se essas pessoas se envolvessem com a política do país, seria impossível pra elas ligar a televisão pra assistir o Brasil jogar. E assim como você, também não acho que seja alienação acompanhar o futebol, apenas talvez uma troca de valores como muito acontece na nossa cultura. Sabe, aquela falta de interesse por coisas mais complexas.

    Texto maravilhoso, vou compartilhá-lo com certeza :)
    Beijos

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    1. Obrigada por compartilhar!

      mas é isso. Eu amo futebol e confesso que até queria conseguir deixar de lado o que sinto e torcer.

      mas não rola.

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  3. Não poderia concordar mais com o texto. Maravilhoso, TODO MUNDO precisa ler e refletir!

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  4. Não posso deixar de falar do orgulho que tenho de ter sido apresentada a você por essa blogosfera, fico imensamente feliz em saber que existe sanidade ainda que, poucas pessoas ousem falar publicamente sobre essa copa.
    O que sinto é que sim, a insatisfação das pessoas apesar de um tanto velada, ofuscou o evento. E que algumas não entenderam o intento da manifestação "não vai ter copa".
    O modo como certas pessoas defendem a copa, se torna tão infantil que ás vezes no meio de tantos ânimos exaltados é melhor dar meia volta e não prosseguir na discussão.

    Não acho que seja impossível mudar o Brasil, porque acredito assim como você que existe sim a chance, o problema é a vontade de fazer aliada ao conhecimento que ainda é algo que ameaça a vaidade, o conforto (mental) e a preguiça de muitos.

    Gostei da indicação do livro no post, vou procurá-lo e com certeza comprarei. A época da escravidão mental já passou.

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    1. Eu fico feliz de saber que tem gente que pensa como eu.

      As vezes me acho louca.

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  5. Texto incrível, e eu concordo.
    O mais bonito em tudo é que você finaliza com esperança e otimismos.
    Boa noite,

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    1. tem que ser assim. Se não a gente nem luta, nem prossegue :D

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  6. Eu não entendo de política como você e nem sou ativa como você, por isso eu me limito a manter a minha opinião guardadinha. Não me sinto no direito de debater um assunto sobre o qual não sou informada. Mas eu concordo com a sua opinião. Os protestos e as lutas defendem muito mais do que uma tarifa ou denunciam muito mais do que uma organização corrupta. E eu acredito sim que estamos passando por uma revolução - lenta - mas que só tende a crescer. É uma fase nova na nossa história, pois os estudantes de antigamente, que conquistaram tanto na nossa história, não tinham um poder que temos hoje: a internet e a rapidez do fluxo de informação.

    Palmas pra esse post, palmas para a sua atitude politicamente ativa. Mas continuarei apenas observando - até porque minha síndrome do pânico não me permite ir pra rua lutar. HAHAHA

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    1. Obrigada por compartilhar e comentar! <3

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  7. Rafaela18.6.14

    Descordo em parte da sua colocação sobre o argumento "meu protesto será nas urnas", acredito que o contexto dessa frase é usado na maioria das vezes por pessoas que não se sentem representadas
    pela conduta de alguns militantes que não sabem protestar de forma pacífica. Mas somente porque algumas pessoas preferem não ir as ruas protestar, isso não significa que elas não tenham engajamento político.
    Não sei se você sabe, mas existem várias formas de fazer política e a partidária é só uma delas. E talvez uma pessoa que estude e trabalhe, realmente não tenha tempo, nem vontade de protestar (nas ruas) como as demais, mas isso não faz dela uma pessoa alienada, a menos que ela queira. Assim como o fato de ir as ruas protestar, também não garante nenhuma ponderação ou senso crítico .
    Muitas das pessoas que estão ali, não sabem se quer pelo que estão protestando. Me lembro de quando os protestos eclodiram no ano passado aqui no Rio de Janeiro, ouvir pessoas dizendo que estavam ali por que os amigos também estavam, ou ainda por que estava mais fácil ficar com alguém nas passeatas do que em uma micareta. Isso sem falar daqueles que aproveitam a oportunidade para vandalizar, transformando aquilo que poderia ser um protesto produtivo em uma barbárie, causando um caos (nada criativo), gerando medo nos mais indefesos e tirando o nosso direito constitucional de ir e vir.
    E não para por aí, não podemos nos esquecer do tanto de subcelebridade que aproveitou a oportunidade para aparecer e "causar" nas redes sociais durante o período.
    Então não é tão simples quanto dizer que quem não participa de protestos é alienado e quem participa é politicamente engajado, essa afirmação seria praticamente leviana se não estivéssemos falando de um debate "honesto e sem estereótipos". Mas já que estamos falando de um debate, fica aqui a minha contribuição.

    Atenciosamente, Rafaela

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    1. Rafaela, creio que você interpretou mal a minha colocação. Alias, quando eu desenvolvi essa parte, deixei bem claro que no atual sistema político que vivenciamos, o voto é apenas uma forma de participação, assim como protestos e outras atividades PARTIDÁRIAS OU NÃO, são outras. Em nenhum momento disse que quem não participa de protesto é alienado. Isso quem disse foi você, talvez por se sentir incomodada com o tom do texto, não sei. Honestamente estou tentando entender da onde você tirou isso.

      E se uma pessoa não se sente representada como ela pode protestar somente nas urnas? vamos todos votar nulo e só? Se não nos sentimos representados, aí é que é AINDA mais necessário participar. Seja com petições, passeatas, greves, protestos e todas as outras formas de participação existentes.

      O meu debate foi sim sem esteriótipos e preconceitos. Quem os trouxe foi você, que infelizmente tem uma visão muito negativa dos protestos. Ou talvez romântica, por crer que em um ato político - seja ele qual for tudo será perfeito. Afinal, gente que sai da linha, gente que faz coisas que discordamos SEMPRE HAVERÁ. Mas se isso impedir nossa participação, nunca vamos sair da nossa zona de conforto.

      protesto por protesto não leva a nada. greve por greve também não. tal como votar por votar muito menos. Quem dá significado as coisas é a nossa participação. Agora como você participa é uma outra questão. Se você acredita que a via de transformação é a eleitoral, tem todo o direito de defender. O ponto para reflexão do texto é que não adiante dizer que vai protestar nas urnas e passar 4 anos sem fazer nada no restante.Que infelizmente é o caso de grande parte das pessoas que usam esse argumento. Com isso não digo que é o seu caso, sei que tem pessoas que participam de diversas formas (mais uma vez FRISO isso), mesmo assim, sabemos que de longe, não é nem grande parte da população brasileira.

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Oi, sou Jess! Vivo em São Paulo, Brasil onde trabalho como designer. Adoro tudo que envolve criação. Criei o blog em uma tentativa de extrair do caos da grande metrópole o criativo. Hoje o blog tem um pouco mais que isso, como registros dos meus dias, sensações, reflexões e coisas que me inspiram! Sinta-se a vontade para ler, comentar, compartilhar e interagir :)







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