Todo mundo erra

25 de agosto de 2014

Eu erro. Você erra. Todo dia, fazemos várias coisas "erradas" das quais não temos nem conhecimento. Algumas dessas coisas machucam as pessoas, outras lesam, algumas irritam, causam polêmica.  A questão é, como lidamos com nossos erros e os erros alheios? Partimos para o ataque? Buscamos o dialogo? Nos culpamos? Qual é a melhor saída? Quem dera houvesse um manual para cada situação, mas a bem da verdade é que não há, e o grande problema é que quase sempre deixamos que a emoção prevaleça diante da razão, tomando decisões precipitadas, as vezes nem tão pensadas e que podem causar um grande estrago. Esse texto é uma tentativa de refletir como podemos usar as situações de conflito em prol da  nossa própria evolução e das pessoas ao nosso redor. Eu entendo que o erro é a melhor oportunidade para aprender. Só que o primeiro passo para isso, é entender que todos erram e merecem um voto de confiança



Desde que eu comecei a trabalhar com design a coisa que mais me incomoda na área é a quantidade de coisas erradas que vemos por ai. Pessoas que copiam o trabalho dos outros, usam materiais que tem uma licença não destinada para aquele fim, cobram muito barato por um trabalho (prejudicando os colegas de profissão), entre tantas outras coisas. E sabem, escrevo esse texto com uma certa parte de culpa, porque já cometi todos esses erros, e talvez as vezes ainda incorra em um ou outro sem ao menos me aperceber. É errado, sim claro que é. Mas cometemos. Irrita? Claro. Tira a gente do sério. Mas acontece todos os dias por diversos motivos. Sei que isso não ocorre apenas no design, mas em qualquer atividade criativa e de cunho intelectual. Escritores, músicos, fotógrafos, blogueiros... Quem nunca notou que existe uma banda super reconhecida na Inglaterra que copia literalmente várias passagens das músicas dos Beatles? (risos). É muito difícil definir o que é plágio, o que é inspiração, acho que por isso há tanto debate em torno dessas questões. Não é meu objetivo nesse texto definir a diferença entre o certo e o errado. É um debate muito mais complexo. Mas gostaria de suscitar o debate sobre como temos nos portado diante daquilo que coletivamente há um certo consenso que é errado. E isso não vale apenas para a questão dos direitos autorais do trabalho intelectual (como comentei acima), mas para tudo na sociedade. Pois a forma como lidamos com coisas menores influencia em como lidamos com as maiores. Se nas pequenas coisas nossa postura é a da condenação, da punição, das formas mais extremas de lidar com o conflito, dificilmente teremos outra postura que não essa diante das coisas maiores. Por isso, esse texto é uma reflexão ampla sobre erros, punição e o caminho para construção de uma sociedade melhor.

Tudo tem dois lados

Quando usamos esse tipo de argumento as pessoas logo acham que isso serve para minimizar o delito cometido. Mas não é bem por aí. Tudo na vida tem duas versões, dois lados e diversas perspectivas. Isso não quer dizer que podemos justificar os erros cometidos (e tudo bem). Erros tem consequências, e quando cometemos temos que lidar com elas, faz parte do processo de aprendizagem. Porém não podemos deixar de enxergar os motivos que levam as pessoas cometerem erros. Ouvir e tentar entender o outro é o primeiro passo para um melhor julgamento. 

O nosso grande problema é que instintivamente, como forma de proteção, preferimos as soluções mais fáceis quando entramos em contato com o conflito. A preferência da maior parte das pessoas é partir para a condenação. Porque é fácil. É muito simples apontar o dedo, dizer tudo que pensamos, desejar a morte daquele ser que te prejudicou. É uma atitude animal. Quando ferimos um animal, ele instintivamente vai nos atacar como forma de se auto proteger. A questão é que somos humanos e adquirimos uma capacidade cerebral que nos permite sair desse estado de animalidade e operar por princípios da racionalidade, construir um julgamento e avaliar todos os pontos envolvidos antes de tomar uma posição. Quando deixamos de olhar para todos os lados e refletir sobre cada situação, estamos optando por agir como animais. E dentro de uma sociedade complexa como a nossa, esse é o caminho para o fim. 

Vamos imaginar uma situação... Você gostaria de ter a mão cortada caso roubasse algo? Aposto que a maioria pensou logo que SIM, POIS É ERRADO. É, mas imagine que você não tem o que comer, não consegue trabalho há anos, está com muita dificuldade, pediu, ninguém te deu, ou seja, chegou em uma situação extrema e decidiu que seria melhor perder a mão a morrer de fome. Você acharia justo perder sua mão em uma situação como essa? Você não iria querer pelo menos ter a oportunidade de seu caso ser ouvido e julgado? Quando contextualizamos as coisas, o julgamento muda. O peso das decisões é outro. Todo mundo merece ao menos ser ouvido, ter seus motivos considerados. Até porque, não sabemos o dia de amanhã. E todos podemos estar no lugar daquele que hoje está sendo julgado.

Como dizia, Tolstoi. Olho por olho, até que um dia estejamos todos cegos.

Não fazer com o outro o que não gostaria que fizessem com você

Sei que é um princípio Cristão, mas honestamente, é um principio incrível, todos deveriam aplicar independente da fé. Não fazer com o outro o que não gostaríamos que fizessem conosco faz parte de olhar para todos os lados da questão e nos ajuda e ter um melhor julgamento da situação. Quando nos enxergamos no outro (principio que constitui a humanidade), temos menor propensão para agir de forma animalesca. Se eu vejo que o outro tem sentimentos (como eu tenho), vou pensar 2 vezes antes de lhe causar uma dor que eu não gostaria jamais de sentir. Sempre que estou nervosa respiro fundo e penso que aquela pessoa que me irritou também tem coração como eu. E que se eu tivesse ali no lugar dela, cometendo o mesmo erro, gostaria de ser compreendida nos meus motivos e advertida para não cometer mais aquele erro novamente. Gostaria de ter uma outra chance. Mesmo que eu não estivesse enxergando meu erro, gostaria de alguém que me orientasse.

Existe uma diferença entre errar e agir de má-fé

Como eu disse, todos erram. Mas tem gente, que sabe que está errado, foi alertado e persiste no erro. Isso não podemos considerar de forma ingenua como apenas um erro. Todos sabem que sou contra blogueira shame e outros sites do tipo. Isso porque apesar de achar justa a proposta de denunciar algumas coisas erradas que acontecem na blogosfera, acho da mesma forma injusto expor pessoas pelo único motivo de zoação. Ou seja, entre 2, 3 posts úteis de denúncia, há dezenas ridicularizando pessoas por seus gostos diferentes e fora do padrão. No fim, mais perdemos que ganhamos. E isso se aplica a qualquer outra proposta de site com esse objetivo de expor pessoas sem critérios. 

Acho que existe coisas erradas e elas precisam ser denunciadas. Mas com critério, provas e embasamento. Quando nos sentimos lesados, devemos e podemos reaver nossos direitos. Mas existem critérios para isso, se não incorremos no olho por olho que citei acima. Só podemos saber se alguém agiu de má-fé fazendo um julgamento, analisando todos os pontos e emitindo um parecer. Dando a chance da pessoa se explicar. Se não defendermos isso, abrimos espaço para atitudes pautadas em emoções pessoais, como ira, inveja, magoa, dor. Coisas que obscurecem nossa visão para a realidade.

Agora vejam bem, é preciso deixar claro que não é porque todo mundo erra que temos que tolerar certas coisas. Há sim erros inadmissíveis, erros que precisam ser punidos, coisas que não podem passar. Apenas o que eu estou frisando nesse texto é que antes de chegar a conclusão que um erro é de fato inadmissível e passível de punição, é preciso percorrer um caminho chamado: julgamento.

Nem tudo precisa virar um espetáculo

Sei que todo mundo adora uma polêmica. Mas precisamos mesmo ficar julgando todos os dias as pessoas em praças públicas?  

Para mim, se alguém erra, isso te de ser resolvido entre as partes. No caso, quem foi lesado e quem supostamente lesou. É preciso buscar todas as formas possíveis de resolução do conflito a fim de aumentar o ocorrido. Apenas em casos extremos, é que se deve buscar mediadores, sejam eles a justiça ou testemunhas, pessoas no facebook e etc. O problema de fazer de um ocorrido um espetáculo para o público é que as pessoas geralmente vão opinar sobre aquilo que elas não estão a parte, quase sempre ofendendo a pessoa acusada, sem ao menos fazer aquele julgamento que tanto defendi aqui. Ou seja, vira um circo que muitas vezes pode ter como consequência a humilhação e destruição da imagem da pessoa acusada. 

A quem acredita que se ela for culpada, ela merece. Mas e se ela não for? Quem repara o dano?

Não se esqueçam do caso da mulher que foi morta por espancamento por pessoas que tinham CERTEZA que ela matava crianças. Quando na verdade, ela nunca matou ninguém.

A sociedade que se pauta pelo medo é uma sociedade primitiva e ignorante

E por fim, preciso dizer que aqueles que acreditam no medo da punição como forma de evitar conflitos, não somente está equivocado (dado ao fato de existirem DEZENAS de pesquisas que mostram que o medo nem sempre torna uma sociedade livre de crimes e delitos), como também estão pensando de forma muito primitiva. O medo pode impedir que algumas pessoas cometam certos atos, mas não impedem que elas entendam o porque de não cometer esses atos.

O medo pode ser superado com as motivações certas. Agora quando realmente compreendemos as consequências das nossas atitudes e o quanto isso pode atingir o outro, pesamos mais as nossas atitudes. Não quer dizer que não haja erros, que vai ser tudo perfeito. Não, definitivamente não. Mas pelo menos vamos parar de queimar pessoas nas fogueiras. Ou mesmo achar que temos o direito de olhar a foto ou um nome de um individuo em um site e comentar que "é vaca", ou "é puta".

O que queremos para nós? Essa é a pergunta que deixo para refletirmos. Queremos uma sociedade esclarecida, onde as pessoas tomam atitudes pautadas em princípios éticos universais do desenvolvimento comum, ou queremos uma sociedade que age olho por olho, cada um por si?

Sei que o caminho para construção dessa sociedade é muito difícil. Prevê diversas mudanças morais, estruturais, e etc. Mas é preciso começar a trilhar, seja de que forma for. Me assusta em pleno século XVI depois de termos vivido a era das trevas, passado pela iluminação do século das luzes, quase 200 anos depois ainda reproduzirmos comportamentos tão cruéis e instintivos. Está mais do que na hora de mostrar ao mundo o poder da orientação, da iluminação, da educação. O quanto isso pode ser mais forte que o medo, a acusação, as denúncias.... a condenação. Vou repetir que SEI que há diversos fatores que impedem que essa realidade seja nossa realidade atual. E quanto a isso é muita luta para mudar o cenário lá de fora. Mas aqui dentro, das nossas mentes essa verdade não pode se calar. Todo mundo erra, e todos merecem ao menos ser compreendidos e terem uma chance para reparar esse erro.

Eu acredito muito nisso. E você?









  1. Eu também acredito, Jess. E a valorização do erro faz com que o foco seja somente o erro, não assumir uma atitude que se tomou, e tampouco pensar sobre as consequências. Concordo que os detalhes ao dia são aquilo que compõe as coisas maiores. Acredito que humilhar ou punir é tão intolerante quanto agir de má-fé. Este é um assunto complexo que você abordou da maneira mais simples e direta possível. E que vou considerar sempre que me deparar com situações de julgamento, mesmo porque elas exigem reflexão que extravasam o sim e o não.

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    1. Eu acho que foi até bem confuso meu texto, mas se servir de reflexão está mais que ótimo :D

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  2. Anônimo25.8.14

    antes de mais nada, belo texto. parabéns.

    penso que, como termina o texto, como um "grito" no escuro, que atesta que existem "as condições" que nos cercam, e força toda nossa mudança, este texto ganha uma dimensão exata: a de, pelo menos, colocar o problema. Se as condições não são das mais satisfatórias, e a educação e mudança de hábito, nas nossas circunstâncias são lentas e como "andar descalços por pedras e espinhos", ao menos se apontou o problema, que deve ser pensado.

    quando você disse : "Pois a forma como lidamos com coisas menores influencia em como lidamos com as maiores", achei interessante, e me recordo do que li em Platão, quando diz que é nos detalhes que percebemos a verdadeira índole que se expressa, de forma espontânea, e não premeditada; que vale mais uma brincadeira, do que anos de discussão, para conhecer verdadeiramente, a pessoa. E acho isso muito justo.

    Quando diz sobre o problema da forma de lidar com o erro, de um ponto de vista histórico, ao pensar a política e a moral vemos que a sociedade gera/reproduz um valor proprio das elites, sobre ser um homem "perfeito", que segue as leis, que faz tudo certo, que trabalha certinho, que não faz greve, que não transgride, que aceita as normas, etc. E para completar isso, as religiões, sobretudo as ocidentais criam a "argamasa" ideológica sobre o papel moral das pessoas, em que há postulados que devam ser seguidos, sobre bem e mal, e um julgamento se torna mecanismo de reação, de ataque. Ora, isso porque a própria pessoa não foi educada (ou não aprendeu) para isso, não chegou a tal postulado moral, por ela próprio, tacam-lhe a setença e criam o rebanho que o irão levar adiante, sem muito pensar.

    Ora, mas até os mais bem intencionados, que procuram se afastar disso, cometem tais erros. Freud falava que havia, sim, a razão como a entendemos; mas que a nossa psiquê possui uma outra lógica, uma outra razão que também governa-nos. Não responde a tudo, mas penso, contribuindo ao debate, que seja oportuno pensar a problemática entre a razão lógica e objetiva do acerto/erro de atitudes e condutas boas/más, mesmo que a partir de ideias que sejam construções sociais, junto com o mecanismo psiquico que tem uma outra lógica, e que interfere na lógica dos próprios fatos, como disse acima, e entender o movimento de mudança entre valores e nossa psique.

    e por fim, o mais brilhante, é que esse texto tem toda força emotiva que penso ser o toque especial a toda reflexão racional e argumentada.


    do seu,
    bru

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  3. Olá flor
    Nossa eu já cometi tantos erros e já ví tantas pessoas cometendo erros comigo que aprendi muito com tudo, esse ano me ocorreu um fato muito chato que me levou ir até a polícia, eu errei claro mas a pessoa tb errou comigo, conclusão disso tudo, eu é que tive que pedir desculpas a pessoa sendo que era ela que deveria ter me pedido desculpas, e com esse fato chato eu aprendi muito, me sinto mais humana, mais experiente e sei que essa tal pessoa que errou tb deve ter pensado no assunto, ou não, só sei que não tive mais contato com ela e nem ela comigo, graças á Deus kkkkkkkk, mas enfim flor, errar é humano sim mas tem seus limites, o faz uma pessoa errar talvez venha da coisa mais básica e simples, a EDUCAÇÃO, quem tem uma boa educação, uma base boa vinda dos pais dificilmente vai cometer erros graves, ou vai ser uma pessoa de mal caráter, não que isso a impeça de cometer erros mas vai fazer com que haja um certo bloqueio para que coisas graves não venham acontecer.
    Gostei muito do seu texto, parabéns!!
    Beijos!!

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    1. obrigada!

      concordo que educação faz a diferença.E pode ser dos pais, mas também pode vir da sociedade.

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Oi, sou Jess! Vivo em São Paulo, Brasil onde trabalho como designer. Adoro tudo que envolve criação. Criei o blog em uma tentativa de extrair do caos da grande metrópole o criativo. Hoje o blog tem um pouco mais que isso, como registros dos meus dias, sensações, reflexões e coisas que me inspiram! Sinta-se a vontade para ler, comentar, compartilhar e interagir :)







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