20 de outubro de 2014

uma pequena reflexão sobre competitividade

Hoje eu recebi um e-mail um pouco inusitado, onde uma pessoa que trabalha com criação para a web tinha algumas dúvidas sobre meu trabalho e gostaria de saber como era o meu processo de produção e etc. Essa pergunta, que a priori gera um grande estranhamento, suscitou uma pequena reflexão em minha mente. Pois naturalmente (como é meio da minha personalidade) eu já respondi o e-mail explicando, indicando fontes e dando informações, e logo em seguida fiquei pensando se o que eu fiz teria sido de fato uma coisa certa. Afinal, vivemos em um mundo competitivo onde estamos sempre lutando para ganhar nosso espaço e dar informações de "bandeja" pode não ser uma atitude muito inteligente.

Por vivermos no ápice de uma sociedade extremamente competitiva, é muito difícil pensar em alguma forma de desenvolvimento que não leve em conta os princípios da competição. Me recordo que nos debates acerca da educação emancipatória, sempre foi muito difícil tentar explicar as pessoas que outra forma de viver é possível, porque o pensamento hegemônico tende a ser o liberal, de que para as crianças se desenvolverem é necessário faze-las competir entre si até que se chegasse no melhor. Eu mesma por um tempo tive dificuldades de ver de outra forma, até que realmente me debrucei a estudar o modelo colaborativo e seus resultados práticos na realidade, chegando a conclusões realmente chocantes. Como o grande fato de que existe desenvolvimento para além da competição e que geralmente ele é muito mais rápido e profundo, quando feito de forma colaborativa.

A nossa querida internet é o maior exemplo disso. A interwebs foi basicamente construída de forma colaborativa. O movimento de código aberto e software livre trouxeram uma nova mentalidade onde compartilhar conhecimentos e resultados é tão importante quanto construir um nome ou uma marca. Sem esse novo paradigma não estaríamos onde estamos hoje. Pelo menos não teríamos todo esse avanço. Se eu não pudesse ter acesso a tudo que tenho de forma aberta e "livre" eu não teria 1/3 dos meus conhecimentos. Nem mesmo a maioria das pessoas que estão aqui. Não teríamos blogs lindos, nem mesmo talvez existisse uma plataforma legal para isso. Tudo seria diferente e provavelmente um pouco menos evoluído. Porque é uma coisa meio óbvia que várias cabeças funcionam melhor do que uma só e quando podemos aproveitar o trabalho feito pelo outro e trabalhar em cima disso, quem sai ganhando não sou eu, nem o outro, mas a humanidade. 

Claro que existem algumas implicações éticas acerca disso. Nem todo código aberto e software livre é feito com a visão de "progresso da humanidade", sabemos do quanto empresas como a google se aproveitam desse modelo para nos atrair para uma grande armadilha da publicidade e falta de privacidade. Dando com uma mão e tirando com a outra. Porém a discussão em si é sobre princípios e mesmo que eu discorde da forma como eles se apropriarem desse principio, é inegável os resultados que o modelo colaborativo traz. mesmo que no âmbito da internet ainda haja uma competição de mercado pelo modelo econômico que estamos inseridos.

Saindo na internet e indo para a educação chegamos na mesma conclusão. Certa vez tive a oportunidade de aplicar um projeto em 2 turmas diferentes para fazer um pequeno experimento acerca desse princípios debatidos acima. Em uma sala, eu apliquei o modelo competitivo clássico e em outra o modelo colaborativo. Basicamente a tarefa era responder um desafio cientifico, a diferença é que na primeira turma a recompensa era individual, pois quem respondesse certo ganharia pontos e venceria o desafio, e na segunda turma a recompensa era coletiva, pois todos deveriam se debruçar sobre o problema e achar uma solução juntos, fazendo com que a sala vencesse o desafio. O resultado foi surpreendente até para mim que estudo educação libertária há alguns anos. A sala com o modelo competitivo teve um resultado muito inferior a outra que trabalhou coletivamente. A maior parte dos alunos não conseguiu pensar hipóteses coerentes e os poucos que chegaram próximo do resultado não trouxeram uma grande apontamento para questão.  Já no modelo colaborativo eles superaram o desafio e criaram novas perguntas a partir de muitas hipóteses levantadas por todos. Toda vez que alguém dava alguma resposta para o problema tinha alguém que ou refutava, ou complementava ou mesmo reconstruía pensando em outras questões. E mesmo os alunos com mais dificuldades de aprendizagem se envolveram, para o espanto de todos, as vezes dando contribuições geniais. 

Depois disso eu nunca mais acreditei que necessitamos de competição para evoluir. A grande verdade é que a competição na maior parte das vezes nos fragmenta e poda nosso processo evolutivo. Como no caso da internet mesmo. Se não fosse a competição, talvez nossa evolução fosse ainda mais efetiva. E não por uma questão ideológica minha, mas por fatos concretos que muitos estudos provam que quando estamos empenhados em um trabalho coletivo e uma visão coletiva das coisas o desenvolvimento individual também é maior. Porque é uma troca constante, absorvemos o outro e outro nos absorve e juntos construímos o mundo. Ninguém cria nada do nada, nós absorvemos tudo que já foi dito e criado no mundo para fazermos disso coisas novas e quanto mais acesso temos "a essas coisas que foram criadas", mais evoluídos seremos.

Por fim, não estou dizendo que devemos compartilhar tudo sempre. Claro que precisamos sobreviver do nosso trabalho e não é justo que não tenhamos retorno por isso. Principalmente no mundo que vivemos onde é necessário matar um leão por dia. Ainda temos muito que avançar no debate acerca da propriedade e de fato desmistificar essa ideia de que o modelo colaborativo prevê uma espécie de socialização forçada de tudo. No tocante do sistema que vivemos é apenas uma mudança de paradigma. Claro que isso leva a novas ideias (e por consequência novos modelos de sociedade), mas é um processo e não um modelo final de aplicação. Enxergo como uma forma de ver o mundo que mais me traz benefícios do que malefícios. Compartilho, gosto de ensinar e disseminar conhecimento, porque quero crescer, me desenvolver e criar coisas fantásticas. Mas não quero isso sozinha, quero que outras pessoas estejam comigo, quero que a humanidade possa percorrer esse caminho e que as minhas ideias sejam levadas adiante. 

Por isso fico muito triste quando vejo colegas meus que adoram esconder suas fontes. Que não compartilham conhecimento, que acham que para se dar bem em alguma área o melhor é guardar tudo para si e querer ser sempre melhor que o outro. Porque no fim, pode até obter sucesso, mas nunca experimentaram a maravilha que é o desenvolvimento coletivo e o quanto podemos ser melhores quando pensamos além de nosso umbigo. Fica a reflexão para começarmos a semana pensando sobre nosso jeito de ver o mundo.

obs. A imagem do post estava em meu computador e portanto não tenho a fonte. Caso alguém saiba o autor da imagem deixe nos comentários para que eu inclua os créditos.

Link para o projeto da imagem acima: aqui e aqui (um projeto lindo que vale ser conferido).

12 comentários

  1. Jessica20.10.14

    Olá Jess!
    Estou sempre por aqui, porém nunca comento!
    Adorei sua reflexão porque já tenho pensado nisso há algum tempo, principalmente por estar lendo sobre o feminismo e tal. A "competição" entre outras mulheres me deixa muito preocupada, e me vi muitas vezes competindo para ser A melhor em tudo. Hoje tenho consciência de que todos temos capacidade para fazer o que quisermos, e que em grupo o trabalho sempre vai sair melhor.
    Gosto de todos os seus textos, e esse em especial me deu uma ideia do que posso fazer com meu TCC... vou começar a pesquisar, sobre a educação libertária e a competitividade.
    Bjos.

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    1. Você tocou em um ponto sensível para nós mulheres e muito importante!
      A competição está em todos os níveis em todos os pontos da sociedade, mas ao pouco caminhamos para subverter essa lógica. A ciência tem trazido muitos estudos para provar que o aprendizado coletivo é sempre mais efetivo

      Fico feliz em inspirar sue tcc :) força com ele, logo eu começo o meu também.

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  2. Engraçado que esses dias me peguei sendo assim, querendo ter os melhores post e não contar quando alguém me pergunta por exemplo qual post tenho em mente, e tipo de achar que se eu contar ela vai fazer igual e tal. Mas esses dia parei pra pensar quanta hipocrisia e palhaçada da minha parte existem tantos post iguais por ai mas com um conteúdo e uma Feedback totalmente diferente.

    Obrigada pelo post Jess, abriu meus olhos!

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    1. :) fico feliz que tenha despertado essa reflexão.

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  3. Tô ligada, Jess. Acho que todo mundo já fez isso, mas nem todos param pra pensar nesse certo egoísmo, né? Esses dias mesmo eu tava pensando numas atitudes minhas e agora com seu post parei pra dar uma repensada. Muito bem lembrado! Vamo melhorar \o/
    Aliás, acredito que ter um blog ajuda muito nesse aspecto. A gente basicamente compartilha (=

    Ahhh! Fui pesquisar aqui essa imagem do post e vi que o post original foi de uma postagem no tumblr, no qual é apenas o desenho da menina sozinha. Daí outros usuários foram reblogando e adicionando outros personagens a fim de animar a meninha! <3333

    Aqui o post original: http://teppelin.tumblr.com/post/24183554691
    E aqui com mais personagens: http://atokniiro.tumblr.com/post/50590014936

    Que coisa mais fofaaaaa, né *O*
    bjus, Jess!

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    1. é fácil nos deixarmos levar pela mentalidade hegemônica né? mesmo quando procuramos ir na contra mão de tudo isso.

      Obrigada por indicar esses links. Amei esse projeto ♥♥

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  4. Que assunto bacana, Jess. Eu não vejo possibilidade de desenvolvimento sem compartilhar. Não é à toa que essa palavra ficou tão conhecida. Mas além do clique, a partilha das informações, fontes, referências. Não posso me desenvolver sem o outro, isso seria absurdo demais (ainda que muito aceito pelos mercados) Penso na competitividade como uma promessa oca, ou talvez uma ilusão que contamos para confortar o egoísmo. Certamente o trabalho (e a vida) precisam de pessoas como você, com esse pensamento e atitude mais libertadores. Beijos!

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    1. exatamente! Não há "ser humano" sem ser no coletivo na sociedade. Por isso que o aprendizado coletivo é tão mais efetivo. ♥

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  5. Muito bom tratar de assuntos desse tipo...concordo com vc a respeito de td...mas tb temos que levar em consideração que tem muita gente folgadaquerendo crescer as custas de ideias alheias ...eu sou a favor de ajudar sabe...mas temos que ter o feeling p saber se não estamos sendo exploradas!!

    BEijocas

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    1. Sim, sempre haverão aqueles que querem ganhar sem percorrer o caminho. Mas a essas pessoas,hora ou outra o fracasso chega. O que não podemos deixar que aconteça é ver o medo de compartilhar ser maior que a alegria de fazer parte do desenvolvimento das coisas ao seu redor.

      Pelo menos acredito muito nisso.

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  6. Poxa, que legal você estudar sobre educação libertária! Paulo Freire é lindo demais! :)
    Faço parte de um projeto na UnB que tem como objetivo promover, ou facilitar, ou dialogar, ou tudo junto, sobre práticas educacionais inovadoras. São alunos de Psicologia e Pedagogia, principalmente. Mas, o grupo é aberto para quem quiser participar! Tudo o que já foi feito é muito bacana e agora o meu projeto é criar um blog para esse grupo para divulgar tudo o que produzimos, justamente pra favorecer esse diálogo e essa construção coletiva... :)

    Concordo com seu post em todos os sentidos e por ter essa visão crítica sobre educação e sobre viver em sociedade, me identifiquei bastante. ^^

    ;*

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    1. que legal bianca! quando estiver no ar me manda?

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